
Cerca de 27 mil estrangeiros foram levados pela Rússia para combater na guerra contra a Ucrânia, segundo estimativas reunidas em um levantamento conjunto de três organizações de direitos humanos. Os recrutados vêm de nações pobres da África, América Latina e Ásia.
Atraídos por promessas de emprego que não correspondem à realidade encontrada depois da viagem, parte deles já morreu em combate, e famílias relatam dificuldade para repatriar corpos ou obter informações sobre o paradeiro dos parentes.
Promessas de trabalho civil terminam no front.
Um dos casos documentados é o de Arman Mondol, natural de Bangladesh, que buscava emprego no exterior para tirar a família da pobreza. O pai dele, agricultor, vendeu parte de suas terras e contraiu empréstimo para pagar um recrutador. A oferta original era uma vaga de empacotador em depósito.
Com visto de turista, Mondol passou pela Arábia Saudita antes de chegar à Rússia, onde teria sido forçado a assinar um contrato redigido em russo, idioma que não compreendia.
Segundo relato à agência alemã DW, ele e outros estrangeiros eram usados como linha de frente durante operações militares: “Quando estávamos em uma missão, eles sempre nos mandavam na frente, enquanto ficavam atrás. Eles nos usavam como escudo humano e nos empurravam para a linha de fogo”.
Durante uma dessas ações, o veículo em que ele estava atingiu uma mina terrestre. Apenas outra pessoa, além dele, sobreviveu ao ataque. Levado a um hospital militar, Mondol fugiu do local e recebeu ajuda da embaixada de seu país em Moscou para retornar a Bangladesh. Ele carrega estilhaços em uma das pernas e ainda não conseguiu emprego desde a volta.
Salários altos atraem candidatos que sabiam do risco.
Nem todos os recrutados desconheciam o destino final. O cubano Yoan Viondi Mendoza, segundo relato do irmão Michael Duro à DW, aceitou ir à Rússia atraído por um salário mensal de 2 mil dólares, quantia muito superior à média de 20 dólares pagos em Cuba.
Em depoimento à Reuters em setembro de 2023, aos 23 anos, Mendoza afirmou saber para onde estava indo e disse não querer “morrer de fome em Cuba”. Ele exibiu um documento apresentado como contrato com o Exército russo, que previa também a concessão de cidadania.
Segundo Duro, o irmão foi enviado ao front na Ucrânia e depois tentou desistir. Em uma das últimas mensagens enviadas, Mendoza teria dito: “Cometi um erro, me perdoe. Me tire daqui rápido”. O contato foi interrompido logo em seguida, e o nome dele apareceu posteriormente em listas ucranianas de estrangeiros mortos em combate.
Situação semelhante atingiu o queniano Oscar Khagola Mutoka, ex-soldado que viajou à Rússia em 2025 em busca de trabalho, sem revelar aos familiares o destino exato. Uma semana após a partida, enviou aos parentes uma fotografia usando uniforme militar e não voltou a dar sinal de vida. Pouco depois, a família foi informada da morte dele, mas não obteve o corpo. Em maio de 2026, os parentes realizaram um funeral simbólico, com sepultura improvisada.
Debate sobre tráfico humano e resposta russa
De acordo com Ilya Nusov, um dos responsáveis pelo estudo que reuniu os casos, a designação de “mercenários” não se aplica juridicamente à maioria desses combatentes, já que muitos recebem cidadania russa antes de ingressar nas Forças Armadas.
Para ele, parte dos recrutados pode ser enquadrada como vítima de tráfico humano, quando o alistamento ocorre por meio de informações falsas ou coação — o que representaria violação da Convenção da ONU contra o Crime Organizado Transnacional, tratado ratificado pela própria Rússia.
O governo russo nega qualquer forma de coerção. Em março, o chanceler Sergei Lavrov declarou, em coletiva com o homólogo queniano, que não há contratação nem recrutamento forçado ligados à “operação militar especial”, termo usado pela Rússia para se referir à guerra.
Segundo ele, “os voluntários chegam lá em total conformidade com a legislação russa”. Procurado, o Ministério das Relações Exteriores russo não respondeu a pedido de posicionamento.
O tema tem gerado repercussão em diferentes países, incluindo manifestações de familiares de recrutados no Nepal e no Peru, além de ter sido levantado pelo primeiro-ministro indiano Narendra Modi em encontros com o ditador russo Vladimir Putin.
De acordo com as reportagens citadas no levantamento, a Rússia teria restringido o recrutamento de cidadãos de determinados países considerados aliados, embora a lista dessas nações não tenha sido divulgada publicamente.
Nusov pondera que essas restrições podem reduzir temporariamente o fluxo de combatentes de certos países, mas afirma que a Rússia tende a compensar essa queda ampliando o recrutamento em outras regiões.
Estimativa da Sede de Coordenação para o Tratamento de Prisioneiros de Guerra da Ucrânia prevê que o país pode incorporar até 18,5 mil cidadãos estrangeiros ao longo de 2026.
Informações: O Antagonista
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