sexta-feira, 24 de julho de 2026

Rússia recruta estrangeiros pobres para guerra na Ucrânia

Rússia recruta estrangeiros pobres para guerra na Ucrânia

Cerca de 27 mil estrangeiros foram levados pela Rússia para combater na guerra contra a Ucrânia, segundo estimativas reunidas em um levantamento conjunto de três organizações de direitos humanos. Os recrutados vêm de nações pobres da África, América Latina e Ásia.

Atraídos por promessas de emprego que não correspondem à realidade encontrada depois da viagem, parte deles já morreu em combate, e famílias relatam dificuldade para repatriar corpos ou obter informações sobre o paradeiro dos parentes.

Promessas de trabalho civil terminam no front.

Um dos casos documentados é o de Arman Mondol, natural de Bangladesh, que buscava emprego no exterior para tirar a família da pobreza. O pai dele, agricultor, vendeu parte de suas terras e contraiu empréstimo para pagar um recrutador. A oferta original era uma vaga de empacotador em depósito.

Com visto de turista, Mondol passou pela Arábia Saudita antes de chegar à Rússia, onde teria sido forçado a assinar um contrato redigido em russo, idioma que não compreendia.

Segundo relato à agência alemã DW, ele e outros estrangeiros eram usados como linha de frente durante operações militares: “Quando estávamos em uma missão, eles sempre nos mandavam na frente, enquanto ficavam atrás. Eles nos usavam como escudo humano e nos empurravam para a linha de fogo”.

Durante uma dessas ações, o veículo em que ele estava atingiu uma mina terrestre. Apenas outra pessoa, além dele, sobreviveu ao ataque. Levado a um hospital militar, Mondol fugiu do local e recebeu ajuda da embaixada de seu país em Moscou para retornar a Bangladesh. Ele carrega estilhaços em uma das pernas e ainda não conseguiu emprego desde a volta.

Salários altos atraem candidatos que sabiam do risco.


Nem todos os recrutados desconheciam o destino final. O cubano Yoan Viondi Mendoza, segundo relato do irmão Michael Duro à DW, aceitou ir à Rússia atraído por um salário mensal de 2 mil dólares, quantia muito superior à média de 20 dólares pagos em Cuba.

Em depoimento à Reuters em setembro de 2023, aos 23 anos, Mendoza afirmou saber para onde estava indo e disse não querer “morrer de fome em Cuba”. Ele exibiu um documento apresentado como contrato com o Exército russo, que previa também a concessão de cidadania.

Segundo Duro, o irmão foi enviado ao front na Ucrânia e depois tentou desistir. Em uma das últimas mensagens enviadas, Mendoza teria dito: “Cometi um erro, me perdoe. Me tire daqui rápido”. O contato foi interrompido logo em seguida, e o nome dele apareceu posteriormente em listas ucranianas de estrangeiros mortos em combate.

Situação semelhante atingiu o queniano Oscar Khagola Mutoka, ex-soldado que viajou à Rússia em 2025 em busca de trabalho, sem revelar aos familiares o destino exato. Uma semana após a partida, enviou aos parentes uma fotografia usando uniforme militar e não voltou a dar sinal de vida. Pouco depois, a família foi informada da morte dele, mas não obteve o corpo. Em maio de 2026, os parentes realizaram um funeral simbólico, com sepultura improvisada.

Debate sobre tráfico humano e resposta russa


De acordo com Ilya Nusov, um dos responsáveis pelo estudo que reuniu os casos, a designação de “mercenários” não se aplica juridicamente à maioria desses combatentes, já que muitos recebem cidadania russa antes de ingressar nas Forças Armadas.

Para ele, parte dos recrutados pode ser enquadrada como vítima de tráfico humano, quando o alistamento ocorre por meio de informações falsas ou coação — o que representaria violação da Convenção da ONU contra o Crime Organizado Transnacional, tratado ratificado pela própria Rússia.

O governo russo nega qualquer forma de coerção. Em março, o chanceler Sergei Lavrov declarou, em coletiva com o homólogo queniano, que não há contratação nem recrutamento forçado ligados à “operação militar especial”, termo usado pela Rússia para se referir à guerra.

Segundo ele, “os voluntários chegam lá em total conformidade com a legislação russa”. Procurado, o Ministério das Relações Exteriores russo não respondeu a pedido de posicionamento.

O tema tem gerado repercussão em diferentes países, incluindo manifestações de familiares de recrutados no Nepal e no Peru, além de ter sido levantado pelo primeiro-ministro indiano Narendra Modi em encontros com o ditador russo Vladimir Putin.

De acordo com as reportagens citadas no levantamento, a Rússia teria restringido o recrutamento de cidadãos de determinados países considerados aliados, embora a lista dessas nações não tenha sido divulgada publicamente.

Nusov pondera que essas restrições podem reduzir temporariamente o fluxo de combatentes de certos países, mas afirma que a Rússia tende a compensar essa queda ampliando o recrutamento em outras regiões.

Estimativa da Sede de Coordenação para o Tratamento de Prisioneiros de Guerra da Ucrânia prevê que o país pode incorporar até 18,5 mil cidadãos estrangeiros ao longo de 2026.

Informações: O Antagonista 

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