Em um estudo internacional que poderá mudar a prática clínica, pesquisadores da NYU Langone Health e do Perlmutter Cancer Center, nos Estados Unidos, anunciaram uma molécula que reduziu em 41% o risco de progressão do câncer de endométrio, um dos mais comuns do sistema reprodutivo feminino. Esses tumores estão se tornando mais letais e há poucas opções de tratamento: até agora, não existem terapias padronizadas para prevenir ou retardar a recorrência da doença. O resultado foi apresentado nesta segunda-feira (26/10) no congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (Esmo), em Madri, na Espanha.
O estudo de fase 3, uma das últimas antes de um medicamento estar pronto para aprovação, envolveu mais de 700 voluntárias que haviam sido tratadas com sucesso com o pembrolizumabe, medicamento que ajuda o sistema imunológico a atacar as células cancerígenas. Elas foram divididas em dois grupos: metade recebeu a nova substância e a outra metade ficou com a quimioterapia padrão.
A molécula, chamada sac-TMT, também reduziu em 32% o risco de morte. Ela se liga à superfície das células tumorais e, uma vez no interior celular, libera uma dose de uma substância química que promove a morte das estruturas doentes, sem prejudicar os tecidos saudáveis. Além da apresentação no congresso, o estudo foi publicado, ontem, na revista The Lancet.
"Nosso estudo oferece uma esperança muito necessária para mulheres em todo o mundo que vivem com câncer de endométrio, cuja incidência e mortalidade estão aumentando", disse, em nota, a coinvestigadora do estudo, Michelle Lightfoot, professora assistente da NYU Grossman School of Medicine e oncologista ginecológica do Perlmutter Cancer Center. Segundo a médica, as taxas de mortalidade da doença estão aumentando, o que pode ser atribuído a subtipos altamente agressivos.
"Esses resultados positivos do primeiro estudo de fase 3 com sac-TMT após imunoterapia estabelecem esse medicamento como um novo tratamento padrão para câncer endometrial recorrente", avalia a líder do estudo, Bhavana Pothuri, do NYU Grossman School of Medicine. "As diretrizes clínicas para o câncer de endométrio precisarão ser reavaliadas para incorporar o sac-TMT", afirmou.
Entusiasmo
No fim de semana, estudos apresentados no congresso da Esmo foram recebidos com entusiasmo pela comunidade médica. Um deles chegou a ser aplaudido no domingo, durante a sessão plenária, onde são discutidas as pesquisas mais promissoras. Trata-se de uma combinação de dois medicamentos que agem no sistema imunológico que aumentou significativamente a sobrevida de pacientes com a forma mais agressiva de câncer de pulmão, o de pequenas células em estágio avançado.
A fase 3 do estudo incluiu 563 pacientes que haviam recebido a quimioterapia padrão e um imunoterápico e não tiveram progressão da doença. Eles foram divididos em dois grupos: um recebeu a associação das substâncias tarlatamabe e durvalumabe, enquanto o outro foi tratado com a segunda molécula, isolada. Em média, os voluntários foram acompanhados por 16 meses.
No primeiro grupo, a mortalidade foi 58% menor. Em média, os pacientes tratados com a dupla abordagem viveram 21,1 meses no período de acompanhamento, contra 12,7 meses. Além da melhora na sobrevida global, após um ano, 79,4% dos participantes que receberam a combinação de moléculas estavam vivos, em comparação com 53,3%.
"O que chama a atenção nesse estudo é o benefício observado ao acrescentar uma segunda imunoterapia ao tratamento. Estamos falando de uma doença agressiva, para a qual ainda precisamos ampliar as alternativas capazes de prolongar a vida dos pacientes", comenta Raphael Parmeggiani, vice-presidente de Assuntos Científicos em Oncologia da América Latina da Centogene. "Os resultados mostram uma diferença importante na sobrevida global e também no controle da doença, trazendo uma perspectiva relevante para o tratamento do câncer de pulmão de pequenas células."
O benefício também foi observado no controle do câncer. A mediana de sobrevida livre de progressão — indicador que mede o período em que a doença não avança ou na ausência de óbito — foi de 7,4 meses com a combinação, contra 1,9 mês com durvalumabe isolado. Isso representa uma redução de 66%. "A apresentação na sessão presidencial da Esmo demonstra a relevância que a comunidade científica atribui a esses resultados", avalia Parmeggiani. "É um reconhecimento importante para uma pesquisa que traz evidências de que a combinação pode ampliar os benefícios da imunoterapia em uma doença que continua sendo um grande desafio para a oncologia."
Combinação para melanoma é eficaz
Apresentado no congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (Esmo), em Madri, na Espanha, o estudo de fase 3 INTerpath-001m foi considerado um dos destaques do evento, no sábado. A adição de uma vacina personalizada baseada em mRNA à imunoterapia após cirurgia para melanoma de alto risco reduziu o risco de recorrência ou morte em 42%. "Os dados representam um grande avanço para o tratamento adjuvante do melanoma em estágios II e III; a redução do risco de recidiva é clinicamente significativa e, do ponto de vista dos efeitos colaterais, a combinação foi muito bem tolerada", afirmou James Larkin, copresidente científico do evento, que não participou do estudo.
Atualmente, a imunoterapia é o tratamento padrão após a cirurgia para melanoma de alto risco, mas muitos pacientes ainda sofrem recidiva. Para evitar a volta da doença, os pesquisadores da Universidade de Sydney, na Austrália, apostaram em uma abordagem diferente de estudos anteriores. O tumor de cada paciente é sequenciado para identificar antígenos — proteínas anormais específicas daquele câncer. Até 34 são codificados no mRNA para ajudar o sistema imunológico a reconhecer e atacar todas as células cancerígenas remanescentes.
O ensaio foi realizado com 1.137 adultos, divididos em dois grupos. Em dois anos, 82,2% dos pacientes que receberam a combinação estavam vivos e sem recorrência, em comparação com 70% dos tratados com pembrolizumabe isoladamente. A abordagem dupla também reduziu o risco de metástase ou morte em 38%. "Os resultados são muito impressionantes", acredita Alan Melcher, professor de imunoterapia do Instituto de Pesquisa do Câncer de Londres, no Reino Unido. "O que é particularmente empolgante aqui é que esta vacina é personalizada, usando informações do tumor de cada paciente para identificar alvos específicos para o seu câncer. Essencialmente, ela treina o sistema imunológico para reconhecer essas células cancerígenas como uma ameaça e atacá-las, enquanto o pembrolizumabe ajuda a liberar os freios da resposta imunológica."
Novidades para câncer colorretal
Dois estudos apresentados no congresso da Sociedade Europeia de Medicina Oncológica (ESMO), realizado em Madri, na Espanha, apontaram avanços no tratamento do câncer colorretal, um dos tumores mais frequentes no Brasil. Os resultados envolvem uma terapia experimental direcionada à mutação do gene KRAS e o acompanhamento de longo prazo de pacientes tratados com uma combinação de imunoterápicos.
No estudo de fase 1 QTX3034, uma droga experimental associada ao cetuximabe e à quimioterapia demonstrou atividade contra tumores avançados com a mutação KRAS G12D. Entre os participantes, a taxa de controle da doença chegou a 79%, incluindo pacientes que tiveram redução tumoral ou estabilização do câncer.
As mutações no gene KRAS estão presentes em quase metade dos casos de câncer colorretal e estimulam a multiplicação descontrolada das células tumorais. Por mais de quatro décadas, a proteína foi considerada impossível de ser atingida com medicamentos.
Outro destaque do congresso foram os resultados do estudo de fase 3 CheckMate 8HW, que avaliou a combinação dos imunoterápicos nivolumabe e ipilimumabe em pacientes com câncer colorretal avançado. Após cinco anos, a associação reduziu em 39% o risco de morte em comparação ao uso isolado de nivolumabe.
A sobrevida estimada em cinco anos foi de 74% entre os pacientes que receberam os dois medicamentos, contra 62% no grupo tratado apenas com nivolumabe. O estudo incluiu 582 participantes cujos tumores apresentavam alterações genéticas conhecidas como MSI-H/dMMR, relacionadas à instabilidade de microssatélites e à deficiência no reparo de erros do DNA.
Essas características podem tornar as células cancerígenas mais suscetíveis à ação do sistema imunológico, favorecendo a resposta aos imunoterápicos. "A divulgação dos resultados foi importante para mostrar a ação do medicamento em cinco anos numa população que tem uma alteração genética muito específica e sensível à imunoterapia", avalia a oncologista Maria Ignez Bragiroli, da Oncologia D'Or. (PO)
Superando a resistência
"A Esmo 2026 trouxe avanços importantes em diferentes tipos de câncer, com destaque para tratamentos personalizados e novas formas de mobilizar o sistema imunológico. No melanoma, o estudo INTerpath-001 foi um dos mais marcantes. Uma vacina de RNA mensageiro, produzida a partir das características do tumor de cada paciente, foi associada ao pembrolizumabe após a cirurgia. A combinação reduziu em 42% o risco de recidiva ou morte em comparação com a imunoterapia isolada. É um avanço importante para as vacinas terapêuticas personalizadas, embora ainda seja necessário acompanhar os resultados de sobrevida. No câncer de pulmão de pequenas células, uma doença agressiva que passou décadas com poucas opções, o DeLLphi-305 mostrou um resultado expressivo: acrescentar tarlatamabe ao durvalumabe na manutenção, após o tratamento inicial, reduziu em 58% o risco de morte. A sobrevida mediana, contada a partir dessa etapa, passou de aproximadamente 13 para 21 meses. Minha avaliação dos dados apresentados é que estamos avançando na capacidade de escolher o tratamento pelas características de cada tumor e de superar mecanismos de resistência. O próximo desafio é transformar esses resultados em cuidado acessível, com seleção adequada dos pacientes e manejo seguro dos efeitos adversos",
Mariana Laloni, oncologista clínica e diretora médica técnica da Oncoclínicas&Co
Com informações do Correio Braziliense.