sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Radiodifusão

Radiodifusão

“Ser radioamador é exercer a sua cidadania. E o cidadão deve ser aquele que está a serviço do outro”, afirma radioamador de Petrópolis (RJ)

Entre histórias de paixão pela comunicação e experiências em situações de emergência, radioamadores destacam a importância do serviço para conectar pessoas e ajudar a salvar vidas.

Hoje é celebrado o Dia Nacional do Radioamador. Muito além de um hobby, o radioamadorismo desempenha um papel histórico e estratégico nas telecomunicações.

“Ser radioamador é exercer a sua cidadania, por isso que é a faixa do cidadão. E o cidadão deve ser aquele que está a serviço do outro”, destacou Bruno Tamancoldi, radioamador há seis anos em Petrópolis, no Rio de Janeiro.

Para Anderson Xavier, radioamador há 32 anos e diretor de Radioamadorismo da Liga de Amadores Brasileiros de Rádio Emissão (LABRE), instituição que representa os radioamadores brasileiros nacional e internacionalmente, a atividade vai muito além da comunicação.

“Ser radioamador vai muito além de ter um equipamento sofisticado ou falar bonito no microfone. Ele é um hobby técnico, então, nesse contexto, somos experimentadores, técnicos em eletrônica, engenheiros e inventores”, destacou.

O interesse de Bruno pelo radioamadorismo surgiu ainda na juventude, na década de 1980, quando acompanhava os colegas do bairro onde morava conversando pelo rádio.

“A gente tem uma vista privilegiada, dá pra ver quase toda a Baía de Guanabara, e eu via meus amigos modulando. Modular é como a gente fala quando alguém se comunica pelo rádio”, explicou.

Já Anderson começou a se interessar pelo assunto ainda na infância. Ele ficava fascinado ao observar as antenas nos telhados e imaginar como funcionava a comunicação por meio daqueles equipamentos.

“O rádio que meu pai tinha em casa era onde eu ouvia estações de outros países e pensava: ‘Como a voz de alguém lá na Europa consegue chegar até aqui usando só o ar e um fio?’”, relembrou.

Paixão à primeira vista

Anderson, que atua como radioamador desde os 12 anos, contou que, quando descobriu que qualquer pessoa podia não só ouvir, mas também falar com o mundo todo usando seu próprio equipamento, foi “paixão à primeira vista”.

“São muitos anos de escuta, testes de antenas e muitas madrugadas acordado caçando DX (contatos a longas distâncias). O tempo passa rápido quando a gente está se divertindo na frente do rádio”, ressaltou.

No caso de Bruno, o primeiro contato com o radioamadorismo foi em 2018, quando pegou um aparelho emprestado para fazer os primeiros testes. Na ocasião, porém, ouviu apenas chiados.

Tudo mudou quando um aplicativo de mensagens muito utilizado no Brasil saiu do ar e Bruno publicou uma foto do rádio com a frase: “Essa comunicação aqui não cai”. Foi essa publicação que abriu caminho para que ele, de fato, começasse no radioamadorismo.

“Um amigo disse que o rádio do pai estava parado há muitos anos e perguntou se eu queria. Ele me deu uma estação praticamente completa”, relembrou.

O primeiro contato

Em fevereiro de 2020, Bruno Tamancoldi, devidamente licenciado e habilitado, começou a se comunicar pelo rádio.

“A gente que é radioamador batiza as estações, e a primeira pessoa que falou comigo batizou minha estação como ‘montanha’, porque estou a 800 metros de altitude em relação ao nível do mar. Então, foi um nome bem apropriado”, contou.

Anderson Xavier também guarda na memória o primeiro contato que realizou pelo rádio.

“Eu estava em frente ao rádio do meu pai, morrendo de medo de falar errado, errar o código ou passar vergonha no ar. Quando criei coragem e chamei na frequência, uma voz com um chiado respondeu do outro lado do mundo, literalmente, no Japão. Ele falava muito bem português, por sinal”, recordou.

Radioamadorismo salva vidas

Durante a maior tragédia climática da história de Petrópolis, em 2022, que deixou mais de 240 vítimas fatais, a atuação voluntária dos radioamadores foi fundamental para salvar vidas e manter a comunicação em um momento marcado pela falta de energia elétrica, internet e sinal de celular.

“Essa situação foi a mais marcante para mim, pois os radioamadores puderam cooperar com a Defesa Civil e ligar os pontos isolados pela água, mantendo todos comunicáveis e recebendo a ajuda necessária para que fossem resgatados e levados a lugares seguros”, relembrou Anderson Xavier.

Bruno, que também atuou nas comunicações durante as enchentes, acrescentou que o serviço ajudou a divulgar informações sobre pontos de apoio, locais de doação de alimentos e água, vias interditadas e rotas seguras.

Novas tecnologias e o futuro do radioamadorismo

“Muitos acham que o rádio morreu por conta das redes sociais. Eu enxergo justamente o oposto: ele nunca foi tão necessário. A internet é conveniente, mas depende de uma infraestrutura gigante. Além disso, o celular te conecta com quem você já conhece; o rádio te conecta com o inesperado, com o desconhecido que está no alto de uma montanha, em um parque ou na varanda de casa”, defendeu Anderson Xavier.

Bruno, por sua vez, observa que as comunicações via rádio diminuíram em comparação com as décadas de 1980 e 1990, mas destaca que a internet também trouxe novas possibilidades para a atividade.

“A internet não acabou com o rádio, mas modernizou as estruturas radiofônicas. Ele sobrevive como um hobby ainda e podemos nos comunicar via internet também. Hoje temos grupos de radioamadores onde a gente combina de entrar no rádio”, explicou.

Radioamadorismo x rádio convencional

Muito além de um simples “rádio”, o radioamadorismo difere do serviço de radiodifusão convencional, tanto na finalidade quanto na forma de operação. O serviço de radioamador é uma modalidade de comunicação operada por pessoas físicas devidamente habilitadas e licenciadas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Já uma emissora de rádio convencional, aquela que se escuta no som do carro ou em casa, é operada por pessoas jurídicas e tem a finalidade de transmitir conteúdos musicais, de entretenimento e jornalísticos. Para funcionar, precisa de outorga aprovada pelo Poder Executivo federal, por meio do Ministério das Comunicações, e pelo Congresso Nacional.

Avanços recentes e políticas públicas

Nos últimos anos, o setor passou por modernizações regulatórias. Em 2026, a Anatel aprovou novas regras para simplificar o acesso ao serviço e atualizar os requisitos técnicos, facilitando a entrada de novos operadores.

Além disso, o Ministério das Comunicações, em parceria com a Anatel, lançou uma plataforma digital que permite solicitar licenças e acompanhar processos on-line.

Como se tornar um radioamador?

Para operar como radioamador, é obrigatório obter certificação e licença junto à Anatel, o que exige conhecimentos técnicos mínimos.

Confira a cartilha com o passo a passo:

https://sistemas.anatel.gov.br/anexar-api/publico/anexos/download/e2bee3ec4783c5c41a8ce4affe7baef8

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