quinta-feira, 22 de outubro de 2026

França se prepara para nova onda de protestos após distúrbios e prisões

França se prepara para nova onda de protestos após distúrbios e prisões

Enquanto se recupera dos distúrbios de 17 de outubro e avalia os prejuízos, a França se prepara para uma nova rodada de protestos, marcada para sábado, e para uma greve geral. Sophie Binet, líder da Confederação Geral do Trabalho (CGT), convocou os franceses a "subirem o nível" das manifestações, com a paralisação agendada para 5 de novembro. Uma reunião entre Binet e o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, terminou sem resposta às reivindicações do sindicato. "Chegou o momento de subir o nível da mobilização; a greve deve assumir o protagonismo", anunciou a sindicalista. Pela terceira noite consecutiva, as autoridades decretaram toque de recolher em alguns bairros de Paris, entre 23h e 6h (das 18h à 1h, pelo horário de Brasília). Dessa vez, dois setores da capital terão a circulação restrita: a Praça da República e Les Halles, uma tradicional área comercial.

Lecornu anunciou o destacamento massivo de policiais para evitar novos tumultos durante os protestos de sábado. Nas manifestações do último fim de semana, ao menos 2.500 pessoas foram detidas, das quais 174 ainda estão na prisão aguardando julgamento ou condenadas. O movimento de contestação social começou com estudantes insatisfeitos, que exigiam melhorias na educação, e ganhou a adesão dos chamados "coletes amarelos", movimento que busca denunciar o alto custo de vida no país e se pauta por outras insatisfações populares. Édouard Geffray, ministro da Educação, anunciou que, na segunda-feira, apresentará suas "primeiras decisões" às organizações estudantis.

Professor de ciência política da Universidade Paris 8, Yves Sintomer disse ao Correio que é muito difícil prever o que ocorrerá no sábado. "Há uma revolta contra a violência policial, a desigualdade social e a falta de democacia, que faz com que a juventude não seja escutada pela classe política. A repressão foi muito forte. Isso pode estimular com que muitas pessoas não saiam às ruas. Há muita incerteza sobre quem protestará neste sábado: estudantes, universitários e coletes amarelos", advertiu. Para Sintomer, o governo tem provocado a tensão social dos últimos dias. "A sociedade francesa é marcada por uma grande desigualdade. Os serviços públicos estão precarizados, e existe um sentimento de injustiça social. Além disso, o sistema político não tem sido capaz de responder às demandas da população e, principalmente, da juventude, cujo voto não é obrigatório. A França também enfrenta forte polarização política."

O estudioso da Universidade Paris 8 lembrou que a CGT e outras federações sindicais fizeram um chamado para uma greve geral em exatamente duas semanas. "É bem possível que vejamos uma confluência de sindicatos, dos coletes amarelos e dos estudantes para adesão ao movimento. A paralisação de 5 de novembro pode dar início a um período de agitação social ainda mais intenso. As próximas semanas serão decisivas para o futuro do movimento", disse Sintomar. "A raiva da população é muito grande, assim como o medo da repressão policial."

Sylvain Boulouque, professor da Universidade de Reims e especialista em história do comunismo e do anarquismo, explicou ao Correio que existe uma questão política importante em jogo. "O governo basicamente culpa o líder da extrema-esquerda, Jean-Luc Mélenchon pelos distúrbios e pelos saques, enquanto Mélenchon responsabiliza o governo por uso excessivo da força", afirmou. "Isso se enquadra no campo das manobras políticas tradicionais. Os manifestantes que protagonizam os distúrbios pertencem a uma vertente política diferente dentro do espectro de esquerda — a 'ultraesquerda' (ativistas autônomos, comunistas sindicais, ex-maoístas e anarquistas), que se recusa a participar das eleições e detesta o líder da França Insubmissa. Embora parte dos distúrbios contra as forças de segurança e os símbolos do capitalismo venha, de fato, da ultraesquerda, é preciso, além disso, distingui-la dos saqueadores, que estão próximos ao banditismo."

"Estúpidos"

Ante comentários de líderes estrangeiros, como Donald Trump, que condenaram os protestos do último sábado, o presidente francês, Emmanuel Macron, qualificou as declarações como "estúpidas". Em visita a Doha, capital do Catar, ele considerou inaceitáveis os comentários, alguns deles baseados em imagens criadas por inteligência artificial (IA), e lamentou que dirigentes façam "campanha às custas" da França. Um claro recado a Trump, que deposita todas as fichas na eleição de meio de mandato de 3 de novembro — cruciais para a retomada do controle da Câmara dos Representantes e do Senado pelo Partido Democrata (oposição). "Quando vejo líderes que estão em campanha, seja na região ou do outro lado do Atlântico, que às vezes, com credulidade, repetem o que aparece na IA (...), percebo que fazem campanha às nossas custas", lamentou Macron. Com informações do Correio Braziliense.

Nenhum comentário:

Postar um comentário