
O número de empresas inadimplentes no Brasil atingiu, em junho de 2026, o maior patamar da série histórica, superando 9,1 milhões de CNPJs negativados. O valor total das dívidas chegou a R$ 232,9 bilhões, segundo o estudo divulgado nesta segunda-feira (17) pela Serasa Experian.
Em média, cada empresa inadimplente acumula 7,3 contas em atraso, com dívida média de R$ 25.508,96 por CNPJ. O ticket médio das pendências é de R$ 3.515,77. As micro e pequenas empresas são as mais afetadas pelo cenário e representam 8,6 milhões dos CNPJs inadimplentes e concentram 59,7 milhões de dívidas, que somam R$ 201,4 bilhões. Cada micro ou pequena empresa inadimplente acumula, em média, 6,9 contas em atraso, com a dívida média de R$ 23.181,56 por CNPJ, enquanto o ticket médio chega a R$ 3.370,47.
Entre os segmentos, o setor de Serviços concentra a maior parcela das empresas inadimplentes, com 55,7% do total. O Comércio aparece na sequência, com 32,2%, seguido pela Indústria, com 8%, e pelo setor Primário, com 0,9%. Quando considerada a origem das dívidas, os Serviços também aparecem na primeira posição, responsáveis por 31,6% dos débitos. Bancos e cartões respondem por 19,5%, enquanto as Cooperativas representam 8,4%.
"Quando observamos a composição das dívidas, percebemos que boa parte da inadimplência empresarial continua ligada às necessidades de financiamento da própria operação. Em um ambiente de crédito restritivo, administrar essas obrigações torna-se mais complexo, especialmente para empresas que dependem de capital de giro para manter suas atividades", explica Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian.
A Região Sudeste concentra o maior número de empresas negativadas. São Paulo lidera o ranking, com 3.126.658 CNPJs inadimplentes. Minas Gerais aparece em segundo lugar, com 907.558, seguido pelo Rio de Janeiro, com 874.385. O Paraná ocupa a quarta posição, com 601.986 empresas negativadas, enquanto o Rio Grande do Sul aparece em quinto, com 527.555.
O recorde registrado em junho mostra a persistência da pressão financeira sobre as empresas brasileiras, especialmente os pequenos negócios, em um cenário de juros ainda elevados, atividade econômica mais fraca e necessidade de recomposição do fluxo de caixa.
Para o economista e sócio da Valor Investimentos, Davi Lelis, os dados refletem as dificuldades enfrentadas pela economia real e mostram um cenário de pressão simultânea sobre os custos e as receitas das empresas.
Segundo ele, o recorde de inadimplência chama atenção por ocorrer mesmo após o início do ciclo de redução dos juros pelo Banco Central. A avaliação é de que, apesar dos cortes, o custo do dinheiro permanece elevado para empresas que precisam de crédito e carregam dívidas acumuladas.
Lelis afirma que o cenário combina juros ainda altos, maior endividamento empresarial e sinais de enfraquecimento do mercado de trabalho, com redução na abertura de novas vagas. “O efeito é um efeito tesoura: de um lado, o custo do dinheiro ainda está muito alto; de outro, a receita que banca os custos está encolhendo.”
Na avaliação do economista, essa combinação deixa as empresas pressionadas por dois lados, enquanto o custo para manter ou refinanciar as operações permanece elevado, a capacidade de geração de receita perde força. O resultado é uma deterioração do fluxo de caixa que dificulta a regularização das dívidas e aumenta a vulnerabilidade financeira dos negócios.
Inadimplentes pessoa física
O Brasil encerrou julho com 83,9 milhões de pessoas inadimplentes, alta de 0,23% em relação ao mês anterior. Ao todo, o país registrou mais de 348,3 milhões de dívidas em aberto, que somam R$ 586,4 bilhões.
No Distrito Federal, são mais de 1,4 milhão de consumidores inadimplentes, responsáveis por aproximadamente 9,8 milhões de dívidas, que totalizam R$ 14,3 bilhões. O valor médio devido por pessoa chega a R$ 9.784,36. As instituições financeiras, incluindo bancos e cartões de crédito, concentram 26,29% das pendências.
O cenário também reflete dificuldades enfrentadas pelos consumidores ao longo do primeiro semestre. Segundo dados apresentados pela Serasa, 50% dos brasileiros afirmaram ter gastado mais do que o planejado nos primeiros seis meses de 2026.
Entre os principais desafios financeiros, as dívidas relacionadas a cartões e empréstimos ganharam espaço e passaram de 21% em 2025 para 26% em 2026. O custo de vida, que inclui despesas como aluguel, supermercado e contas básicas, aparece na sequência. Apesar de continuar pressionando o orçamento, o indicador recuou de 29% para 25% no período.
Para Aline Vieira, especialista da Serasa em educação financeira, a redução dos juros pode contribuir para a recuperação da saúde financeira dos consumidores, mas não elimina a necessidade de planejamento.
“Atrelado à educação financeira, menores juros possibilitam mais consumidores para recuperar sua saúde financeira. No entanto, o uso consciente do crédito continua sendo indispensável para evitar um novo ciclo de endividamento.” Com informações do Correio Braziliense.
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